Acabou. Já era! Não tem mais volta. A realidade está definitivamente sepultada, e quem deu a última batida na terra da cova com a pá foi o mundo virtual. Dentro do metrô não é diferente. Os dispositivos móveis parecem hipnotizar grande parte dos passageiros dentro dos vagões, deixando-os presos com algemas de plástico em uma cela de Led.
Fico deslocado. Essa é a palavra que define minha situação dentro do transporte metropolitano. Pergunto-me: “Cadê as pessoas?”. Elas estão e ao mesmo tempo não estão naqueles locais. Olho para o lado e vejo uma infinidade de cabeças abaixadas, todas olhando algumas polegadas que tentam reproduzir o mundo real em uma porção de aplicativos, redes sociais, dados, megabytes, gigabytes e vícios. Fico perplexo ao observar tal situação.
Tento entender aquilo que vejo. Mas o pensamento reflexivo deste que vos escreve é cortado em meio a um barulho, parecido com um assobio, que quase faz meu coração sair pela boca: uma mensagem chegou a um dos passageiros. Porém, o susto maior foi após alguns minutos, quando escutei o mesmo ruído ecoar do aparelho de outra pessoa. Até parece que a primeira havia emprestado seu celular ao desconhecido colega de vagão.
O metrô para na estação. Abre-se a porta. Entra um casal apaixonado, de mãos dadas, trocando olhares como quem se declara através da visão. Penso, iludido, que enfim alguém viveria no mundo real. Inocência a minha. Bastou o trem entrar em movimento para tirarem o smartphone de cada um do bolso e entrarem na dimensão paralela da web. Até o amor perdeu para a tecnologia.
Uns balançam a cabeça ouvindo música com seu fone. Outros dão risada quando leem algo. Há ainda os que fazem cara de preocupados com o que observam no aparelho. Tem aquele que dorme com a cabeça caída e a boca aberta. Mas este estaria mais na realidade que os outros? Não. Mesmo enquanto vaga por sonhos, está apreciando no fundo de sua mente um som com o fone de ouvido e o seu celular – formato de telha – exposto na mão. Olha o perigo de alguém tomá-lo enquanto cochila! Percebo que mais ninguém se importa nem com a própria segurança...
E da mesma forma, também não ligam para o espaço ao redor. Já não existe mais a realidade, o “tête-à-tête”. Estejam em pé, sentadas, espremidas na porta do vagão ou no meio de outros passageiros, as pessoas não largam mais o mundo virtual.
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quinta-feira, 22 de maio de 2014
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Histórias de Metrô: Medos e desconfianças
As pessoas andam muito desconfiadas, isso não é de hoje. Em quem podemos confiar? Como ficar tranquilo sem saber quem está ao lado, especialmente no transporte público? Uma vez vi uma mulher dar um pulo de susto quando o rapaz à sua esquerda tirou o pacote de balas que ia vender. Ela achou que fosse uma arma, ou algo do tipo, e ainda teve que ouvir o próprio vendedor tirar sarro da situação: “Eu só estou fazendo o meu trabalho, moça! Não precisa ficar assim não. Eu, hein!?”.
Certas coisas realmente me dão muito medo no metrô. Uma delas é quando eu vejo alguém falando sozinho. E não sei se é padrão entre os “autoconversadores”, mas todos os que já me deparei ficaram perto da porta de saída bem no meio do vagão.
Um dia, fiz um trajeto através de 11 estações. No caminho, tive a oportunidade de acompanhar alguns casos diferentes desse tipo.
O primeiro foi entre a segunda e a terceira estações. O homem entrou e colou na porta de saída (pra variar). Então do nada começou a dizer, com uma cara irritada: “Você vai ver. Estou chegando. Eu vou te colocar no sapatinho!”. Estava bem ao lado. Virei a cara disfarçadamente para entender o que se passava e constatar que aquilo não era comigo. Mesmo assim, minhas pernas começaram a tremer.
Quando me tranquilizei, ouvi mais uma: “Você está pedindo! Você está querendo!”. Entrei em pânico. O que mais queria era que ele saísse dali. Para a minha felicidade, isso ocorreu já na próxima estação. Ufa! Estava aliviado. Poderia seguir em paz. Não, não poderia...
Na sexta estação, entrou outra figura e ficou no mesmo lugar do anterior. Dessa vez só mexia a boca, mas com uma expressão facial bem mais irada que a do primeiro. E ainda tinha um agravante: este dava uns socos de leve na porta.
Não era possível aquilo. De novo? Mas menos mal que também durou só uma estação. Ele saiu agitado, cortando todos os que estavam em seu caminho na plataforma. Agora chega, né!? Não. Aconteceu pela terceira vez...
Já me sentia perseguido, e não era para menos. Na nona estação, entrou um senhor. Parecia ter seus 50 anos. Mas este não ficou na porta, e sim em frente a minha pessoa! E ele não era daqueles solitários. Tinha um amigo imaginário, com quem falava e ria.
Depois começou a apontar para um rapaz que estava sentado, tranquilo com seu fone de ouvido. E o pior, ele viu que estava sendo fitado. O homem continuou apontando, olhando para o seu amigo invisível e rindo de algo inexplicável!
Nisso, o rapaz levanta-se do banco e vai tirar satisfação. Engulo seco e observo, receoso que isso fosse acabar em briga. As pessoas em volta afastaram-no do senhor e aconselharam a não se importar, afinal, “não vale a pena brigar com um louco”, diziam.
E o outro ainda pediu desculpas e falou que não era com o rapaz, mas depois tirava um sarro com o seu “camarada mental”.
Dessa vez, a coisa não se encerrou na próxima estação. Ele continuou. O clima de tensão se espalhou por todo o vagão.
A próxima parada já era onde eu desceria. E assim que ela chegou, fui embora e deixei aquele cenário aliviado depois de tudo que vivi e, ao mesmo tempo, curioso para saber que fim teria essa história.
Certas coisas realmente me dão muito medo no metrô. Uma delas é quando eu vejo alguém falando sozinho. E não sei se é padrão entre os “autoconversadores”, mas todos os que já me deparei ficaram perto da porta de saída bem no meio do vagão.
Um dia, fiz um trajeto através de 11 estações. No caminho, tive a oportunidade de acompanhar alguns casos diferentes desse tipo.
O primeiro foi entre a segunda e a terceira estações. O homem entrou e colou na porta de saída (pra variar). Então do nada começou a dizer, com uma cara irritada: “Você vai ver. Estou chegando. Eu vou te colocar no sapatinho!”. Estava bem ao lado. Virei a cara disfarçadamente para entender o que se passava e constatar que aquilo não era comigo. Mesmo assim, minhas pernas começaram a tremer.
Quando me tranquilizei, ouvi mais uma: “Você está pedindo! Você está querendo!”. Entrei em pânico. O que mais queria era que ele saísse dali. Para a minha felicidade, isso ocorreu já na próxima estação. Ufa! Estava aliviado. Poderia seguir em paz. Não, não poderia...
Na sexta estação, entrou outra figura e ficou no mesmo lugar do anterior. Dessa vez só mexia a boca, mas com uma expressão facial bem mais irada que a do primeiro. E ainda tinha um agravante: este dava uns socos de leve na porta.
Não era possível aquilo. De novo? Mas menos mal que também durou só uma estação. Ele saiu agitado, cortando todos os que estavam em seu caminho na plataforma. Agora chega, né!? Não. Aconteceu pela terceira vez...
Já me sentia perseguido, e não era para menos. Na nona estação, entrou um senhor. Parecia ter seus 50 anos. Mas este não ficou na porta, e sim em frente a minha pessoa! E ele não era daqueles solitários. Tinha um amigo imaginário, com quem falava e ria.
Depois começou a apontar para um rapaz que estava sentado, tranquilo com seu fone de ouvido. E o pior, ele viu que estava sendo fitado. O homem continuou apontando, olhando para o seu amigo invisível e rindo de algo inexplicável!
Nisso, o rapaz levanta-se do banco e vai tirar satisfação. Engulo seco e observo, receoso que isso fosse acabar em briga. As pessoas em volta afastaram-no do senhor e aconselharam a não se importar, afinal, “não vale a pena brigar com um louco”, diziam.
E o outro ainda pediu desculpas e falou que não era com o rapaz, mas depois tirava um sarro com o seu “camarada mental”.
Dessa vez, a coisa não se encerrou na próxima estação. Ele continuou. O clima de tensão se espalhou por todo o vagão.
A próxima parada já era onde eu desceria. E assim que ela chegou, fui embora e deixei aquele cenário aliviado depois de tudo que vivi e, ao mesmo tempo, curioso para saber que fim teria essa história.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Histórias de Metrô: Espasmos de riso
Sou um jornalista observador. Procuro visualizar tudo o que acontece à minha volta. Mas, infelizmente, tem horas que acabo vendo mais do que devia. E nessa de enxergar demais, acabei me deparando com uma situação engraçada.
Metrô lotado. Eu estava colado na moça ao lado, que digitava mensagens em seu super tecnológico smartphone. Enquanto admirava aquele aparelho, inevitavelmente vi o que ela digitava. Lá havia escrito: “Tem uma mulher aqui que tem cara de sapo”.
A frase por si só já me fez segurar o riso e aguentar firme. O problema maior surge quando eu olho ao meu redor e consigo identificar exatamente a “mulher com cara de sapo”.
A força que fiz para não gargalhar já era ineficaz! Mesmo sem olhar de novo para a face de qualquer pessoa ali, as cenas que tinha acabado de presenciar não saíam da minha mente.
Foi difícil. Olhava para o chão como quem encara outra pessoa brincando de ficar sério por mais tempo. E perdi.
Na primeira risada, fingi ser uma tosse. Na segunda, balancei a cabeça como se lembrasse de uma piada recém-contada. Na terceira, já achava graça pelo motivo inicial e pelos disfarces das outras duas vezes.
Creio que as pessoas à minha volta pensaram que eu era louco. E não posso afirmar que estavam completamente enganadas...
O tempo entre uma estação e outra demorava uma eternidade. Ou seja, foram cerca de nove eternidades para eu sair de lá.
A moça, que começou toda essa situação ao escrever aquilo, saiu logo. Pensei em sair também para dar risada à vontade e depois pegar o próximo metrô, mas quem disse que conseguia me mexer de tanta vergonha?
Os espasmos descontrolados de risos ficavam cada vez mais frequentes. Já não sabia mais o que fazer. Decidi, então, aceitar a minha derrota e ficar com o sorrisão aberto sem medo de ser feliz (literalmente)!
E, para a minha infelicidade, a mulher com cara de sapo desceu na mesma estação que eu...
Metrô lotado. Eu estava colado na moça ao lado, que digitava mensagens em seu super tecnológico smartphone. Enquanto admirava aquele aparelho, inevitavelmente vi o que ela digitava. Lá havia escrito: “Tem uma mulher aqui que tem cara de sapo”.
A frase por si só já me fez segurar o riso e aguentar firme. O problema maior surge quando eu olho ao meu redor e consigo identificar exatamente a “mulher com cara de sapo”.
A força que fiz para não gargalhar já era ineficaz! Mesmo sem olhar de novo para a face de qualquer pessoa ali, as cenas que tinha acabado de presenciar não saíam da minha mente.
Foi difícil. Olhava para o chão como quem encara outra pessoa brincando de ficar sério por mais tempo. E perdi.
Na primeira risada, fingi ser uma tosse. Na segunda, balancei a cabeça como se lembrasse de uma piada recém-contada. Na terceira, já achava graça pelo motivo inicial e pelos disfarces das outras duas vezes.
Creio que as pessoas à minha volta pensaram que eu era louco. E não posso afirmar que estavam completamente enganadas...
O tempo entre uma estação e outra demorava uma eternidade. Ou seja, foram cerca de nove eternidades para eu sair de lá.
A moça, que começou toda essa situação ao escrever aquilo, saiu logo. Pensei em sair também para dar risada à vontade e depois pegar o próximo metrô, mas quem disse que conseguia me mexer de tanta vergonha?
Os espasmos descontrolados de risos ficavam cada vez mais frequentes. Já não sabia mais o que fazer. Decidi, então, aceitar a minha derrota e ficar com o sorrisão aberto sem medo de ser feliz (literalmente)!
E, para a minha infelicidade, a mulher com cara de sapo desceu na mesma estação que eu...
segunda-feira, 17 de março de 2014
Histórias de Metrô: Mais criatividade na hora de pedir dinheiro
Algo que sempre vemos dentro do metrô é quando uma pessoa entra no vagão e, entre uma estação e outra, começa a pedir dinheiro. Esse ato ora vem através de uma história (trágica) de vida, ora via comércio de chicletes (ou “chícletes”, dependendo do vendedor).
Entre as mais diversas vezes que pude presenciar algo do tipo, duas foram especialmente malsucedidas. A primeira foi quando a mulher - experiente nisso há muitos anos – entrou no metrô e começou a contar a tragédia que havia vivido. No meio da prosa, ao observar uma senhora que parecia conhecer, parou no mesmo instante e se dirigiu à saída. O melhor foi ouvir da avistada “acho que essa mulher me reconheceu”.
A segunda situação curiosa aconteceu quando um homem – que parecia não estar acostumado a essa prática – falava que vinha de outra cidade para prestar concurso para ser motorista de ônibus e não havia passado. Consequentemente, não tinha verba para voltar. Nisso, outro senhor o interrompeu e perguntou se ele possuía comprovante do concurso – óbvio que a resposta foi negativa. Na hora, pensei: “Agora pronto, eles vão brigar aqui”. Felizmente e para a minha surpresa, a réplica foi pacífica, porém indignada: “É porque eu também sou motorista e já fui vítima de uma enganação dessas! Falaram que iria ter um concurso, mas quando chegava no local a empresa negava”. O alívio foi imediato. O homem que pedia dinheiro não soube mais o que falar e, sem receber nada, saiu do vagão na estação seguinte.
Sejam bem ou malsucedidas, vemos que falta criatividade em todas as tentativas. Característica esta que só observei em uma ocasião. No caso, embarcaram dois rapazes, com um violão cada. Até aí, nada demais. Porém só foi o metrô andar, que eles se apresentaram como dupla sertaneja e começaram a cantar a primeira música que vinha à cabeça entre as portas do vagão.
E assim foram por cerca de duas ou três estações. Sempre tocando e andando ao mesmo tempo, no meio dos bancos, de um lado para o outro. Naquele ritmo, a dupla ganhou os passageiros. O estresse habitual de quem pega transporte público diariamente deu lugar a uma alegria – mesmo de quem não gostava do estilo musical – que fez aquele trajeto ganhar mais vida. Até os mais carrancudos comentavam: “Fazer assim é melhor do que ficar com lamentações. Pelo menos anima o povo”.
A apresentação até intervalo teve. Isso quando o metrô parava. Afinal, os pedintes não podiam ser vistos. E essa foi mais uma forma de divertir as pessoas que ali estavam.
Mas o pedido formal mesmo veio após umas cinco músicas. Apelaram para que comprassem seu CD ou dessem algum trocado. Nunca vi tanta gente dar dinheiro a desconhecidos com tamanha alegria como naquele dia...
Entre as mais diversas vezes que pude presenciar algo do tipo, duas foram especialmente malsucedidas. A primeira foi quando a mulher - experiente nisso há muitos anos – entrou no metrô e começou a contar a tragédia que havia vivido. No meio da prosa, ao observar uma senhora que parecia conhecer, parou no mesmo instante e se dirigiu à saída. O melhor foi ouvir da avistada “acho que essa mulher me reconheceu”.
A segunda situação curiosa aconteceu quando um homem – que parecia não estar acostumado a essa prática – falava que vinha de outra cidade para prestar concurso para ser motorista de ônibus e não havia passado. Consequentemente, não tinha verba para voltar. Nisso, outro senhor o interrompeu e perguntou se ele possuía comprovante do concurso – óbvio que a resposta foi negativa. Na hora, pensei: “Agora pronto, eles vão brigar aqui”. Felizmente e para a minha surpresa, a réplica foi pacífica, porém indignada: “É porque eu também sou motorista e já fui vítima de uma enganação dessas! Falaram que iria ter um concurso, mas quando chegava no local a empresa negava”. O alívio foi imediato. O homem que pedia dinheiro não soube mais o que falar e, sem receber nada, saiu do vagão na estação seguinte.
Sejam bem ou malsucedidas, vemos que falta criatividade em todas as tentativas. Característica esta que só observei em uma ocasião. No caso, embarcaram dois rapazes, com um violão cada. Até aí, nada demais. Porém só foi o metrô andar, que eles se apresentaram como dupla sertaneja e começaram a cantar a primeira música que vinha à cabeça entre as portas do vagão.
E assim foram por cerca de duas ou três estações. Sempre tocando e andando ao mesmo tempo, no meio dos bancos, de um lado para o outro. Naquele ritmo, a dupla ganhou os passageiros. O estresse habitual de quem pega transporte público diariamente deu lugar a uma alegria – mesmo de quem não gostava do estilo musical – que fez aquele trajeto ganhar mais vida. Até os mais carrancudos comentavam: “Fazer assim é melhor do que ficar com lamentações. Pelo menos anima o povo”.
A apresentação até intervalo teve. Isso quando o metrô parava. Afinal, os pedintes não podiam ser vistos. E essa foi mais uma forma de divertir as pessoas que ali estavam.
Mas o pedido formal mesmo veio após umas cinco músicas. Apelaram para que comprassem seu CD ou dessem algum trocado. Nunca vi tanta gente dar dinheiro a desconhecidos com tamanha alegria como naquele dia...
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